o chá vermelho embebeu um dia enrustido em nuvens
uma tragédia particular em um dia cinza que se abriu
de uma noite arranhada gemendo ao meu ouvido
para uma noite de lua cândida ao fim da tarde
o redemoinho solitário compartido
em braços que revoltam
os rios que fazem das calhas
mães do que passa e esquece e revolta
também
serenamente.
a minha crueldade extirpada
silenciada nessa cadeira cortando uma tarde iludida
em que nada ousa suceder nada.
existe um entrave entre a manhã e a tarde. um entrave feito de nuvens que torna o dia ilusório para quem está abaixo delas. é um sono onde os fantasmas da cidade reclamam seu chão. o telhado gasto, a infiltração na arquitetura que destoa das caixas, o uivo dos detalhes sobre as janelas. este dia permanece sem conseguir acordar. o sono desrespeitado do tempo. um dia contado que não existe, um dia desmemoriado onde nada se permite acontecer para além do acontecimento. um dia onde ninguém nasce, ninguém morre. um fevereiro em um dia. o dia original em que repentinamente corpos caem como caem com o vento sem vento. o dia da loucura lúcida. um dia ao avesso que desvirou. um dia só história
o meu palco
um dia depois de um pedaço
um filete mudo
a embriaguez.
escuto os pássaros morrendo
ao reconhecerem o céu de seus ninhos
afiados pelos galhos prenunciando um outono que não
é feito para acolher solos amanhecidos
mas é solamente amanhecido
e para além disso
as sinaleiras mudam embaçadas e lentas
a caminho de um acaso